quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Curta-poema-canção Copan 28º


Câmera na testa, Copan 28º. Deitado estático, ventilador ou algo que demonstre estar filmando. 5 segundos, inspiração funda, pigarro. Move a câmera, ficando de pé. Mostra uma agitação de amigos, em volta. Agitados, mas como se não produzissem som. Pego a direita, venho do sofá cinza, corredor, passos. Atravesso a cozinha, esbarro em algo, não ligo: pareço estar apertado. Pau pra fora pela braguilha, jôrro forte. Já olhando a paisagem, do alto, linda e terrível. Suspiro e solto os primeiros saudosos versos do “Frevo número dois de Recife”. Sob a percussão do mijo na água embalo o restante, até o fim. Na volta no corredor silêncio e passos. Os amigos continuam agitados e em off. Volto para posição anterior e vem a Bethânia rasgando o frevo! O Único ruído do mundo é um “Frevo número dois de Recife”. Olho para os amigos, volto para posição. E sobem os créditos.

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Sereias e Marujo

1º Ato

Sereias, sirenas
que me olvidaram o caminho,
desorientaram as estrelas.

Tão lindas
Tão serenas e amigas
que levaram meus navios às pedras.

Sereias,
a quem dei anos,
a quem dei filhos.

Sereias todas
Miragem, temor
e ainda não amor.

E não tu,
mulher do horizonte,
porto de minha felicidade.

2º Ato

Marujo infiel,
admites,
reconhece.

As moças que afogaste,
que não eram miragens.

Sem caldas, seus corpos amanheciam nus,
arroxeados,
mortos.

Nas praias,
rolavam tristes na espuma.

Admites,
quando tocava a moça do horizonte,
quando a provava
e ainda se perdia em horizontes,
se despedia.

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Preocupem-se

Quantos dias já não enluararam
e você até sorriu.
Quantas noites frias e escuras
já passou em gargalhadas.

Não há o que se preocupar.

Preocupem-se os que não têm inimigos.
Os que bocejam,
enquanto todas as tristezas
vêm nos divertir.

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Um cheiro

Fazia serão no trabalho
Buscava as pendências
Pensava em burlar
De repente passa um cheiro
Que passa pra se olhar.

Um cheiro vestido em vermelho
sumiu pelo corredor.

Perdi o fio da meada do poema.

Ah, mas se ela volta.

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Não se mate



Carlos, sossegue, o amor
é isso que você está vendo:
hoje beija, amanhã não beija,
depois de amanhã é domingo
e segunda-feira ninguém sabe
o que será.
Inútil você resistir
ou mesmo suicidar-se.
Não se mate, oh não se mate,
Reserve-se todo para
as bodas que ninguém sabe
quando virão,
se é que virão.
O amor, Carlos, você telúrico,
a noite passou em você,
e os recalques se sublimando,
lá dentro um barulho inefável,
rezas,
vitrolas,
santos que se persignam,
anúncios do melhor sabão,
barulho que ninguém sabe
de quê, praquê.
Entretanto você caminha
melancólico e vertical.
Você é a palmeira, você é o grito
que ninguém ouviu no teatro
e as luzes todas se apagam.
O amor no escuro, não, no claro,
é sempre triste, meu filho, Carlos,
mas não diga nada a ninguém,
ninguém sabe nem saberá.

Carlos Drummond de Andrade

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Suruíal Beat


Perdi-me
Nas vagas ruas
De um qualquer lugar.

Um louco fugido
Abriu a velha porta de um armazém
Onde armazenava seus ancestrais.
Mesmo assim,
Entramos pela janela.
E descobrimos uma tia-avó em comum.

Através dos sonhos dela
Vagueei por de ja vus
Por vagas amarelas, onde
pétalas de algas desconhecidas boiavam
E senti cheiro de esterco em alto mar.
Derivei além de vaguear.

Numa única lambida
Alcancei dos calcanhares à nuca
De uma fêmea linda e morta na qual se transformou o mar revolto
Que reviveu e grunhiu, salgada
Enquanto à engolia num gole.

Sanguíneo,
Caminhei ensolarado pelas sombras
Desenterrei uma ampola de lágrimas
Sob os escombros de uma fábrica de umbrelas.
No Soho, na Istambul, no Lau? No Aleph.
Esvaziei na chuva vermelha de um ocaso de abril.

Sonhei que acordava.

“Finalmente, dei uma caminhada solitária até o dique.
Queria sentar na margem enlameada e
Curtir o rio Mississipi;
Em dez disso,
Tive de contemplá-lo com o nariz encostado numa tela de arame.
Quando começam a separar a pessoas de seus rios,
O que é que nos resta?”

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Turvulência ou melhor poema

Turvas turvas turvas
São a água
Lentos lentos
Oespasços.

Turvulentos?
Turvulentos
São os ventos.

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Outono





Sob minha sombra
Caminho
De dezenas
Centenas
De pequenas
Sombras
Caídas
Da grande sombra
Da árvore.

No tom compartilhado
Mais escuro ou mais claro
Vieses do sol
E do vento
As nossas sombras
Sobre o caminho
Caminhavam.

Sobre a minha
E as demais
Sombras
Tapete voador
Voei uma tarde inteira.

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Um cara que mudou minha vida


Teve um cara que foi meu professor da quinta série ao vestibular. Teve um cara que me disse – e eu na quinta série entendi – que todo o valor vem do trabalho e que o lucro era trabalho roubado. Um cara que orientou minha indignação. Que me apresentou o PT. Que foi com a turma da sétima série para Ouro Preto. Num museu pediu para que encontrássemos a cama onde Tiradentes morreu, nos fazendo sair, em disparada, atrás da tal cama, esquecendo da forca.
Um cara que marcou a mim e aos meus amigos. Eu, mais suscetível, fui fazer história por sua influência. Sou professor por sua influência. Comunista por sua influência. Depois esse cara virou meu companheiro de lutas. Construímos sua candidatura à deputado estadual com poucos recursos, mas com muito brilho nos olhos, em 2006. E vencemos. Agora venceremos de novo, com muito mais gente, com muitos mais olhos brilhantes. Não dá pra esconder que esse cara mudou minha vida. Esse cara é Marcelo Freixo. Meu voto no domingo é só mais um capítulo dessa história que segue acumulando vitórias rumo ao socialismo, à alegria, à liberdade.
50.123 é Freixo!!!

Chinfrim


Virou-me de ponta a cabeça
Um nome que de trás pra frente
E vice e versa e tanto faz
Faz, desfaz e se refaz na mente.

Trancou-me no peito uma angústia
De esperá-la nunca chegar
De chegar até ela de longe
Sabendo que não chego lá.

Mas lá de distante ela sabe
Que basta se aproximar
Desconcerta toda uma vida
Tropeço, me perco, na certeza de acertar

Faço até esse poema
Chinfrim
Malabarismo, macumba
Pra que a moça saiba sempre
Que eu morro
Eu morro sim
Se ela se esquecer de mim.

terça-feira, 28 de setembro de 2010

Feitiço de Áquila


         
                                                   No solo es luz que cae
                                         sobre el mundo
                                         La que alarga en tu cuerpo
                                         Su nieve sofocada,
                                         Sino que se desprende
                                         De ti la claridad como se fueras
                                         Encendida por dentro
                                         Debajo de tu piel vive la luna.
                                                                          
                                                                Pablo Neruda




Fim dos dias e das horas e do mundo
Bem emaranhados o espaço e o tempo
O ciclo de milanos num segundo
Rompesse num grande e novo intento

E fosse assim um encontro imediato
Diante a mim a síntese completa
Se não glorifico: estúpido e ingrato
O universo inteiro em sua nova meta

As curvas e os contornos e os enleios
Mesmo em sua face oculta um brilho intenso
As nuances e crateras e os dois seios

E a grande novidade mostra nua
Em cada infinidade o corpo imenso
Sintetiza num só astro o Sol e a Lua

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Pernas pro ar ou Tragédia


Duas sensacionais piruetas.
Uma tentativa frustrada.
Nada de rede,
tampouco esperança.
Estatelado.
No chão.
O mais hábil trapezista,
de olhos arregalados,
de alguma forma,
nos deixava uma lição.

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Parto

Fundiram-se os sons num único ruído
Intermitente
Mais surdez, que barulho
A sala clara
(Um clarão)
As cores todas em branco
O recém retirado
Pendurado...
Parecia clamar,
O mesmo ruído agudo e intermitente
De todo o mundo
O tempo transfigurado perdia seu tempo
As cordas de minhas sensações esticadas
Rompiam-se...
E continuavam esticando
O recém retirado passou seu olhar por mim
Pendurado...
Não enxergava.
Vislumbrei cada instante daquele  inspirar
Ofegante...
(só perceberia isso na expiração que veria seguinte)
Antes dela,
Uma moça que nem lembrava
Enfurecidamente apertava-me a mão
Largou-a...
Pareceu-me um carinho.
O era (saberia mais tarde)
Toda aquela eternidade antes de expirar
Nos sufocaria
E pelas caras
Um a um sabíamos disso.
Num soco.
Expiramos...
Rompeu-se o umbigo
Cor a cor
Ruído a ruído
Tudo tornou ao que seria
E jamais experimentei
Coisa tão louca.




quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Mal me quer mal me quer



Hoje chegou um Bouquet.
Doze rosas.
Lindas flores.
Passando por cima do amor,
pisando nas minhas dores.

Quem dera viessem limpas
daquele erro passado.
Ervas daninhas pra mim.
Comprando os meus maus-bocados.

Arranquei pétala a pétala
Mal me quer, mal me quer.
Jurei meu ódio por ele,
Me refiz,
As desfazendo.

Os talos descabelados
dei ao florista que veio
e foi levando um recado:

Paste-as!

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Esgrima ou poema pra ganhar beijo de moça



Golpeio o poema de morte.
Esgrimo contra meus versos.
Duelo.
Pra dar um poema pra ela.

Que do alto da sacada,
agita-me um lenço branco.
Sorri inalcançável,
Enquanto eu não mato o poema.

Linda é a moça do lenço.
Tão linda que até merece
que eu crave na minha poesia
minha adaga, meu reverso.

Ah, mas se a moça soubesse,
que o brilho que ela produz,
alto brilho da sacada,
complica toda minha vida.

Ao mesmo tempo,
que dá ânimo a espada,
Me faz criar outro verso.
Que eu mato logo,
mas na morte perseguida,
recria-se o meu poema.

E nessa luta sem fim,
aos olhos da tal donzela,
eu mato e recrio o poema.
E de novo.
E até o fim.
Só pra provar para a moça
Que eu mereço um beijo dela.