quarta-feira, 26 de maio de 2010

Música




I
Entortada,
Uma melodia vira suco.
Ou melancolia.

II
As notas musicais,
de passo e passo, meio passo
passo, passo, passo, meio
Se encaixam em mistério.

III
Como música,
soará meu poema.
Renuncilenciará.
Mas como a corda, como o sino
que vibrou e ainda vibra;
Resoará.
Acolhido.
No ventre do seu ouvido.

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Revolução


Irmãos,
irmanemo-nos!
Apesar de tanto açoite,
peguemos a vida, irmão,
peguèmo-la pelo pescoço.

Esganèmo-la vida!
E retiremos dela tudo que puder dar.

Aprofundemo-nos em socos e abraços.

Desfaçamo-nos dos empecilhos.

Irmanemo-nos, irmãos!
Irmanemo-nos!

Origami

Sou um pobre diabo
de ações inoriginais
dobras
e dobraduras
diabruras origaminais.

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Casório

Aos olhos do Infinito e do Eterno
sob grandes auspícios
de encontros e abraços
entre irmãos e amigos.

Diana Aguiar e Daniel do Vale,
das mãos de um embriagado sacerdote,
de um sorriso ateu,
recebam,
em forma de porrada,
de saculejo,
as mais grandiosas e patéticas bençãos.

Firmeza amigo
ao
domar e atiçar
a alma instigada de mulher
que se se estilhaça,
já era.
E que, portanto, merece a todo momento um cheiro
e um entendimento, principalmente.

Amiga,
é preciso lavar muitas vezes
para se retirar a nódea amarga
que fica
dos dias e amores que amargam.
Se posso lhe dar um conselho:
nunca poupe esse rapaz.

Nesse lar,
acasalem-se apoteoticamente
dancem espremidos entre os móveis
Muito vinho, muito vinho!
Música!
E silêncio.

Não iludam-se com a eternidade.
Mortais,
vivam furiosamente os dias que lhes restam!

Amaldiçoado seja
todo obstáculo no caminho do amor!

Amem.

Pode beijar a noiva.

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

SEIS OU TREZE COISAS QUE EU APRENDI SOZINHO


2.

Com cem anos de escória uma lata aprende a rezar.
Com cem anos de escombros um sapo vira árvore e cresce por cima das pedras até dar leite.
Insetos levam mais de cem anos para uma folha sê-los.
Uma pedra de arroio leva mais de cem anos para ter murmúrios.
Em seixal de cor seca estrelas pousam despidas.
Mariposas que pousam em osso de porco preferem melhor as cores tortas.
Com menos de três meses mosquitos completam a sua eternidade.
Um ente enfermo de árvore, com menos de cem anos, perde o contorno das folhas.
Aranha com olho de estame no lodo se despedra.
Quando chove nos braços da formiga o horizonte diminui.
Os cardos que vivem nos pedrouços têm a mesma sintaxe que os escorpiões de areia.
A jia, quando chove, tinge de azul o seu coaxo.
Lagartos empernam as pedras de preferência no inverno.
O vôo do jaburu é mais encorpado do que o vôo das horas.
Besouro só entra em amavios se encontra a fêmea dele vagando por escórias...
A quinze metros do arco-íris o sol é cheiroso.
Caracóis não aplicam saliva em vidros; mas, nos brejos, se embutem até o latejo.
Nas brisas vem sempre um silêncio de garças.
Mais alto que o escuro é o rumor dos peixes.
Uma árvore bem gorjeada, com poucos segundos, passa a fazer parte dos pássaros que a gorjeiam.
Quando a rã de cor palha está para ter — ela espicha os olhinhos para Deus.
De cada vinte calangos, enlanguescidos por estrelas, quinze perdem o rumo das grotas.
Todas estas informações têm soberba desimportância científica — como andar de costas.


Genialíssimo Manoel de Barros

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Tragédia em três compassos


Tragédia em três compassos

Rodolfo! Rodolfo! Corre aqui!
Esbaforido:
Que foi querida?
Aquele não é o Brandão? – apontando para um sujeito maltrapilho que aparecia no televisor.
Ora essa. Gritaste-me como se morresse, para ver o Brandão na TV?
Mas diz pra mim, é ou não é o Brandão?, insistiu.
Se for... que lástima.
Sabia que aquele era o brandão, mas tamanha curiosidade não se justificava. “Onde já se viu, tanto afã pelo Brandão?!?”. Mas a verdade é que estava irreconhecível. “Logo ele, uma noiva!?!”. Barba: duas vezes por dia. Padaria: terno e gravata, mesmo nos fins de semana.
O resto já se pode imaginar. Segundo compasso: paixão e traição. Terceiro compasso: crime passional.

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Vingança


Há uma anti-tendência
um repuxo
no meu peito
desde sempre
uma tristeza
que dói fina.

Por outro lado
contrapõem-se
uma grandeza de amor
um vício de alegria e encontro
de carnaval furor
de pecado

que talvez seja uma espécie
secreta
de vingança.

Que contra mim
me levará além.

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Filho e Futuro


Em meio à decadência dos sentidos
e das sensibilidades.
Em meio ao tédio e à correria.
À fumaça ao óleo -
dois olhos
em enchente
derramam o futuro.

Aos tiros,
aos sangues.
Ao sentimento precoce de guerra.
À inviabilidade.
Meu filho sorri e chora.
E através de explicações sem casca
me reensina o mundo.

Em meio a minha própria opacidade
à contaminação.
À guerra de classes
e às suas responsabilidades.
Combatemos Orks com peidos
e rimos do Dom Quixote como do Pica-páu.

Anunciamos
irmanados
a potência
a vida
o futuro
de amor e entendimento
que virá.

sábado, 19 de setembro de 2009

Presença de Espírito


Não furte-se
de ter fé na fé
de pensar o que fazer com nossas almas
de concentrar o epírito
e debater os mortos.

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

A mais bonita


A moça mais bonita
Aquela que não se compara
Nem se toca
Dos olhos
Nem com a mão

Segue aflita
A mais bela do mundo
Segue e some
Fugindo
Do medo de eu lhe dizer
De lhe contar

O meu desejo, moça
O meu cinismo
E a violência deles
Ainda te pegam por aí
Num cheiro
Num ponto
Numa rima.

E se te encaro bem nos olhos
No meio do rebolado deles
Te beijo
Te toco os cabelos
Mas somes
A moça mais bonita do mundo
Do mundo
E não dos dedos.

Descobrindo o soneto

A forma de um soneto não é à toa
Estampido genial de algum possesso
Às asas de um pássaro que voa
Somam-se milênios de um processo

Tampouco poderia atribuir
Sua forma a um engenho natural
O canto que assobia o bem-te-vi
Um lá, mas outro em meu quintal

Escritas ou faladas, as palavras
Catorze versos de maneira intercalada
A terra tão já pronta que não lavras

Saem belas da maneira mais cantada
Não importa se um canário ou se o Hermeto
Nada como a forma pura de um soneto.

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

Súbito


Súbito e sobressaltado
Busquei em mim um meio de conter-me
Inconsciente e cônscio
De que o devir não poderia
(Alheio a mim)
Vir de onde viesse

Embriaguez
Lúcida, trêmula e intermitente
Comoção lenta do mundo
Vagueza dos meus olhos e das gentes
Os meus e os seus sentidos
Frente a frente

Afrouxada
A realidade em meu pescoço
Desavexadas as palavras me saindo
Berros e gritos e silêncios e murmúrios
Cada uma falando como sendo

Alegria até na minha tristeza
E tristeza um pouco em meu sorriso
Que fosse só sinceramente
Pitadas, gotas de eu imenso.

De quando em quando
a dor, só, me valeria
Mas dentro de uma calma extrema.
Grudado na memória
Na saudade
Numa idéia fixa
Por exemplo, de doença ou morte
Ou de amor
Mas só doesse
Não inquietasse.

Embriaguez
Das sete à meia noite
Às vezes até cinco da manhã
Mas tão natural e intermitente
Que se não tê-la sentiria-me anormal
Tênue e retilínea embriaguez
Fazendo o mundo literal
Literatura
O rei, eu, você, ana, leões, fantasmas, vasos de flores
Literatura.
E na manhã seguinte e noite toda
Novamente.

Soneto de Tudo ao avesso ou Espinozeando


E se o ao contrário de tudo e o avesso
Elevado ao finito ao contrário
Um todo mundo sem fim nem começo
Levasse a menor parte ao planetário

O mínimo elevado ao extremo e imenso
Um grão de poesia mero e gigante
Quanto mais eterno mais denso
Pulga no palheiro, nós dois no horizonte

E se for assim ermo e contrito
Quanto mais pra dentro dou um grito
Vai te sacudir meu companheiro

Quanto mais ao invés do restrito
Juntar-mos o detalhe ao inteiro
Síntese do menor no infinito.

A outra


Te confesso
Eu amo uma moça escondido
E amo demais essa moça
Secreto um convívio de ti
E nos teus olhos o dela
Reflete um sorriso pra mim

Não chores,
tampouco me olhes assim
pois quando me olhas a moça
duplica teu sofrimento
e sofre por causa de ti.

E a moça é mais do que um espelho
Mais que retrato de si
Eu amo demais essa moça
E tudo às custas de ti.
tiro teu cabelo do rosto
e ela quem está ali.
Eu dou um sorriso pra ela
E é você quem me sorri.

E se tu saísse da mente
Fugisse,
Deixasse-me aqui
Seria jogada de mestre
A esquivar a outra de mim.

Subjuntivo ou dramático


Restavam alguns dias na vida
Antes que ela não ligasse
Ou não dissesse que vinha
Ou simplesmente não viesse

Se eu não pensasse nela
Fingisse que não a via
Cruzando nalguma avenida
No meio de meu pensamento
Eu vivia mais brando

Mas nas tripas que escorrem da espera
Envolvo minh’alma e o pescoço
E sonho e me enrosco nas canelas
Na morte e beleza daquela

Se eu vivesse a certeza
De que ela nunca ligasse
Ou não me esperasse num ponto
De ônibus do meu disparate
Eu desistia da espera
Parava de andar de ônibus
E ou amava outra mulher

Mas se de fato acontece
E a tal daquela me esquece
Ligando-me de repente
Dizendo-me umas e outras
E entre estas que não quer mais

Tranco-me um mês num quarto
Mato primeiro minha alma
(que é pra não sofrer profundo)
irado Subo num prédio
Passo do sétimo andar
E me taco
Juro que me taco.