segunda-feira, 30 de agosto de 2010

À maneira de minérios



Há minas de estanho
Há minas de bauxita
Há minas de carvão.
Os Andes, em se cavando,
Tudo dão.

E à maneira de minérios,
há mineiros.
Subsólicos, subaltérnicos.
Estranhos de estanho.

À maneira de minérios
Sedimentarão,
Sozinhos
Meses, dois meses
Metáfora real da solidão.

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Mundo abaixo


seja como for
vamu botar o mundo abaixo.
Seja com suspiro
seja com terror
Vamu botar o mundo abaixo.

Seja como seja
seja como for
seja com porrada
seja com amor

Vamu botar o mundo abaixo
seja como for.

terça-feira, 29 de junho de 2010

Lição




Do medo do audaz.

Do silêncio
do que tem a dizer e cala.

Do orgulho
daquele que mantém-se contrito na humildade.

Do decoro
que há no ritual do orgasmo.

No amor próprio
do mártir.

Na pureza do devasso.

Na transparência do tolo.

Há sempre uma lição

Quase lição


Do desespero de quem procura
e não achará.

Da alegria forçada
de quem será pra sempre triste.

Das muitas paixões
do incapaz de amor.

Da fêmea que geme e gane e contorce
e não goza.

Das bravatas do covarde.

Quase se tira alguma lição.

domingo, 27 de junho de 2010

Proposta de método para criar histórias coletivas


Plano para Deus e o Diabo carioca
Cangaço na Favela
Ou
Proposta de método para criar histórias coletivas

Pai – morto –poder – filho – vingança/ganância/coragem –reparação –sacrifício.

O cara tava segurando uma furadeira, em situação banal, chega a polícia e passa fogo. Mãe, filho, assistem. O pai era um cara maneiro, ia plantar uma flor. Subiam à laje, após um momento de encontro, na verdadeira acepção da palavra. Quem não daria o tiro? Quem daria? E por que não pode voltar bala? As leis do direito de vingança e justiça. A luta, coletiva. “Um homem roubado nunca se engana”. Sem heróis, mas com mártires que não nasceram pra morrer. Nenhum que já existiu, mas que pode estar em processo. Pode-se, inclusive, ser apenas um sonho no final. Um sonho pós-morte. Perigoso.

Daí em diante, não sei fazer sozinho. Depois é decifrar essa história em debates. Transformá-la em roteiro. Pirar nas filmagens, na edição e botá pra frente.

Triste como um cão.
Silêncio então.

quarta-feira, 23 de junho de 2010

Predestinado


E como se o vazio que me espreita,
desde sempre,
me agasalhasse por completo.
Nessa manhã,
como se eu acabasse finalmente,
pro mundo em torno.

E a tristeza,
mãe de todos os meus filhos –
exceto um –
deitasse sobre mim,
nua.
E me desnudasse.

E o sentimento do erro,
confrontado ao erro mesmo.
De tudo pra trás e pra frente, pro fundo,
matasse de vez meus acertos,
meus sonhos
todo o futuro e até as lamúrias.

E a morte
que sadicamente só me conduzirá mais tarde,
no ocaso do corpo,
me acompanhasse com suspiros e enleios.
Em sopros de uma vida escura
Em lágrimas que não caem
Em amores que escorrem e não vingam.

E finalmente,
Compreendi.
Nessa manhã.
Minha predestinação.

quarta-feira, 2 de junho de 2010

Exercício Crime e Castigo


Da multidão passante, em ir e vir, caótica. Das pessoas todas, era simples distinguir Roulién Cordas. Cortava entre as gentes com ar displicente e febril e de quando em quando mais arfava que dizia: – Raskólnikov. Embrenhava-se em pensamentos, embaçava os olhos pra dentro, indo a diante e sem se dar: – Raskólnikov, repetia e repetia. E eu que o narrava, já o destacando dos demais, perscrutei a moça que vibrava nele e o pensamento fixo que o seguia: “pode-se passar impune ao crime, mas não à paixão”.
Numa mentação furiosa, obstinada, Roulién havia sido predestinado de mulher. Aquela coincidência, que para um realista pareceria trivial, tomou um sentido sobrenatural, místico. Como quando Raskólnikov ouvindo dois homens suporem a morte de uma velha usurária com quem ele acabara de empenhar uma jóia, entende essa coincidência como um chamado. Então à coincidência mística, somou-se a compreensão mística que ele tinha de Crime e Castigo. E Roulién Cordas siderou. E tornou-se personagem.

Romance nenhum


Porque o poeta não faz um romance?
E me lembrar que não sou nem o primeiro.
Seguirei mil, dois mil
dois parágrafos começados rumo ao romance nenhum.

Porque o poeta não faz um romance?
Como ligar esse halo com as personagens em detalhe?
Mostre-me uns versos Dostoeiévski!
Mostre maldito russo! Inatingível russo!

quarta-feira, 26 de maio de 2010

Música




I
Entortada,
Uma melodia vira suco.
Ou melancolia.

II
As notas musicais,
de passo e passo, meio passo
passo, passo, passo, meio
Se encaixam em mistério.

III
Como música,
soará meu poema.
Renuncilenciará.
Mas como a corda, como o sino
que vibrou e ainda vibra;
Resoará.
Acolhido.
No ventre do seu ouvido.

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Revolução


Irmãos,
irmanemo-nos!
Apesar de tanto açoite,
peguemos a vida, irmão,
peguèmo-la pelo pescoço.

Esganèmo-la vida!
E retiremos dela tudo que puder dar.

Aprofundemo-nos em socos e abraços.

Desfaçamo-nos dos empecilhos.

Irmanemo-nos, irmãos!
Irmanemo-nos!

Origami

Sou um pobre diabo
de ações inoriginais
dobras
e dobraduras
diabruras origaminais.

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Casório

Aos olhos do Infinito e do Eterno
sob grandes auspícios
de encontros e abraços
entre irmãos e amigos.

Diana Aguiar e Daniel do Vale,
das mãos de um embriagado sacerdote,
de um sorriso ateu,
recebam,
em forma de porrada,
de saculejo,
as mais grandiosas e patéticas bençãos.

Firmeza amigo
ao
domar e atiçar
a alma instigada de mulher
que se se estilhaça,
já era.
E que, portanto, merece a todo momento um cheiro
e um entendimento, principalmente.

Amiga,
é preciso lavar muitas vezes
para se retirar a nódea amarga
que fica
dos dias e amores que amargam.
Se posso lhe dar um conselho:
nunca poupe esse rapaz.

Nesse lar,
acasalem-se apoteoticamente
dancem espremidos entre os móveis
Muito vinho, muito vinho!
Música!
E silêncio.

Não iludam-se com a eternidade.
Mortais,
vivam furiosamente os dias que lhes restam!

Amaldiçoado seja
todo obstáculo no caminho do amor!

Amem.

Pode beijar a noiva.

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

SEIS OU TREZE COISAS QUE EU APRENDI SOZINHO


2.

Com cem anos de escória uma lata aprende a rezar.
Com cem anos de escombros um sapo vira árvore e cresce por cima das pedras até dar leite.
Insetos levam mais de cem anos para uma folha sê-los.
Uma pedra de arroio leva mais de cem anos para ter murmúrios.
Em seixal de cor seca estrelas pousam despidas.
Mariposas que pousam em osso de porco preferem melhor as cores tortas.
Com menos de três meses mosquitos completam a sua eternidade.
Um ente enfermo de árvore, com menos de cem anos, perde o contorno das folhas.
Aranha com olho de estame no lodo se despedra.
Quando chove nos braços da formiga o horizonte diminui.
Os cardos que vivem nos pedrouços têm a mesma sintaxe que os escorpiões de areia.
A jia, quando chove, tinge de azul o seu coaxo.
Lagartos empernam as pedras de preferência no inverno.
O vôo do jaburu é mais encorpado do que o vôo das horas.
Besouro só entra em amavios se encontra a fêmea dele vagando por escórias...
A quinze metros do arco-íris o sol é cheiroso.
Caracóis não aplicam saliva em vidros; mas, nos brejos, se embutem até o latejo.
Nas brisas vem sempre um silêncio de garças.
Mais alto que o escuro é o rumor dos peixes.
Uma árvore bem gorjeada, com poucos segundos, passa a fazer parte dos pássaros que a gorjeiam.
Quando a rã de cor palha está para ter — ela espicha os olhinhos para Deus.
De cada vinte calangos, enlanguescidos por estrelas, quinze perdem o rumo das grotas.
Todas estas informações têm soberba desimportância científica — como andar de costas.


Genialíssimo Manoel de Barros

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Tragédia em três compassos


Tragédia em três compassos

Rodolfo! Rodolfo! Corre aqui!
Esbaforido:
Que foi querida?
Aquele não é o Brandão? – apontando para um sujeito maltrapilho que aparecia no televisor.
Ora essa. Gritaste-me como se morresse, para ver o Brandão na TV?
Mas diz pra mim, é ou não é o Brandão?, insistiu.
Se for... que lástima.
Sabia que aquele era o brandão, mas tamanha curiosidade não se justificava. “Onde já se viu, tanto afã pelo Brandão?!?”. Mas a verdade é que estava irreconhecível. “Logo ele, uma noiva!?!”. Barba: duas vezes por dia. Padaria: terno e gravata, mesmo nos fins de semana.
O resto já se pode imaginar. Segundo compasso: paixão e traição. Terceiro compasso: crime passional.